Exames de imagem: até onde ajudam?

Cada vez mais, a medicina se especializa e desenvolve novos recursos de tratamento e diagnóstico. Um dos recursos diagnósticos mais utilizados é o exame de imagem. Radiografias, ressonâncias magnéticas, tomografias computadorizadas, ultra-sonografias, dentre vários outros, auxiliam profissionais da saúde a gerar diagnósticos mais precisos para seus pacientes. Mas, de fato, o quanto esses exames auxiliam?

Recebo com frequência telefonemas e mensagens de amigos e pacientes, com um laudo de exame e a pergunta: “é grave?” E a minha resposta, invariavelmente, é: “Não sei, só o exame não me diz quase nada.”

Não é raro recebermos em nossas clínicas e consultórios pacientes que se queixam de determinada dor, fizeram um exame de imagem (pedido pelo seu médico) e “encontraram” a causa da sua dor. No entanto, quando examinamos esse mesmo paciente, notamos que os seus sintomas não são compatíveis com o diagnóstico dado.

Vamos exemplificar: um indivíduo sente dor nas costas. Procura um médico, que lhe pede uma ressonância magnética da coluna. E quando chega o resultado, “voilà”: uma protrusão discal, popularmente conhecida como hérnia de disco (que fique claro, são coisas diferentes, mas a maioria das pessoas considera a mesma coisa). E o paciente chega para nós, fisioterapeutas, com o diagnóstico de “hérnia de disco”. Porém, durante a avaliação desse paciente, você encontra um único sintoma da dita protrusão discal: dor nas costas. O sujeito não tem dores irradiadas, não tem fraqueza nos membros, nenhuma alteração de sensibilidade e, muitas vezes o padrão da dor é totalmente diferente do que seria uma dor gerada por protrusão discal. Mas o diagnóstico está lá, firme, forte e em negrito, dizendo: protrusão discal. E, é claro, o paciente acredita nesse diagnóstico.

E então? A imagem está errada?

De modo algum. A imagem está certíssima, isso é indiscutível. O que pode estar errado é a interpretação da imagem ou, ainda mais grave, a avaliação do paciente.

“Ué, mas o laudo do exame não indica qual é o problema?”

Às vezes, sim. Na maioria das vezes, não.

O exame de imagem dá informações importantes, sem dúvidas, mas nem sempre (ou melhor, quase nunca) apontam claramente o problema. São informações importantes e que devem ser cruzadas com as colhidas na avaliação do paciente, mas dificilmente são suficientes por conta própria.

Já presenciei situações exatamente opostas, mas que demonstram claramente o que estou falando. Há anos, eu era estagiário em uma grande equipe de basquete do Rio de Janeiro. Um belo dia, um dos atletas sentiu um pequeno incômodo no joelho após um choque e decidimos pedir uma ressonância magnética para ter certeza de que não havia nada de grave. E o resultado do exame nos deixou perplexos. As imagens sugeriam lesões em quase todas as estruturas do joelho do atleta. Já vi pacientes com exames muito menos assustadores e que mal conseguiam andar. E ele, no entanto, não sentia quase nada, apenas um leve incômodo, por conta do choque, nada por conta das supostas lesões que a imagem sugeria. Tomamos os devidos cuidados e o atleta voltou à sua rotina normal, sem nenhuma limitação. E com todas as alterações no exame de imagem lá.

Ao mesmo tempo, já recebi pacientes com dores absolutamente insuportáveis, mas que nenhum exame de imagem apontava absolutamente NADA. Zero. Mas as dores estavam lá, constantes e insuportáveis para o paciente.

Os exames feitos estavam errados? Não. Acontece que meramente as imagens não são capazes de gerar diagnósticos. Imagens não escutam o paciente. Imagens não avaliam o paciente. Imagens são apenas fotografias das estruturas corporais, e que nem são capazes de captar absolutamente tudo. Isoladamente, não dizem muita coisa.

Um estudo demonstrou que, cerca de 50% da população adulta, se fizer uma ressonância magnética da coluna lombar, encontrará uma protrusão discal. Metade da população. No entanto, a incidência de sintomas é de apenas 2-3%. Ou seja, os outros 47%, vivem perfeitamente bem com a sua protrusão discal, sem incômodo algum. Até que um belo dia vai jogar aquele futebol no fim de semana, dá um jeito nas costas, vai examinar e…. Ah, é claro. Uma “hérnia de disco”. Só que sem nenhum sintoma de “hérnia de disco”. E o mesmo ocorre com qualquer parte do nosso corpo. A causa das dores pode ser a hérnia ou seja lá que alteração aparecer nas imagens? Claro que pode! Mas é a imagem que vai te dizer isso? Não, não é. É a avaliação do profissional de saúde, utilizando o auxílio das imagens.

                                   rmn protrusao 

Ressonância magnética apontando protrusões lombares. 
Mas, será que ele sente dor?

Mas por que as imagens atrapalhariam? Por um motivo simples. As pessoas acreditam plenamente nos exames. Se a sua ressonância magnética aponta que você tem um desgaste de cartilagem, parece claro que é isso que gera suas dores no joelho. Mas, estruturalmente falando, não necessariamente é. E, se o exame não aponta nada, “por que eu sinto tantas dores”?

É nesse ponto que os exames podem atrapalhar: a expectativa do paciente. Dor é um dos temas mais estudados atualmente em ciências de saúde. Cada vez mais notamos que não são apenas aspectos físicos que desencadeiam dores. Aspectos emocionais, psicológicos, sociais, dentre outros, tem grande influência. Se um paciente acredita que a imagem sugerida no exame causa a dor dele, vai ser difícil desfazer essa associação.

Concluindo, não tomem o laudo de um exame como resposta definitiva para suas dores. Procure um profissional que faça uma avaliação física completa e detalhada para ter um diagnóstico correto e um tratamento bem sucedido.

Até a próxima!